Vida Pessoal de Pessoa (Parte III)

Segunda tentativa de namoro com Ofélia

            Dez anos depois, em 1929, Pessoa volta a namorar com Ofélia, já podendo utilizar de telefonemas para se comunicar. Segue a primeira carta desde a retomada do namoro:
“9.10.1929

Terrível Bébé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha tambem. E é bonbom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bébé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguem gosta de mim, e tambem porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao principio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gaz e expressão geral de não estar alli mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma creança, despia-a e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escripto por mim.
Fernando.”

A volta é influenciada por uma fotografia do Poeta bebendo no Abel Ferreira da Fonseca, que tinha sido oferecida a Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia e amigo de Pessoa. Ela demonstrou interesse em ter uma igual, então ele lhe envia uma com a dedicatória: "Fernando Pessoa em flagrante delito".
Nesta segunda fase do namoro, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e pensamentos. Outra vez, Álvaro de Campos se intromete entre os dois; segundo especialistas, seu relacionamento com Ofélia apenas não ia adiante por ter se tornado um triângulo amoroso entre ambos e Álvaro.
Assim, em 1931, Fernando rompe novamente com Ofélia, desta vez definitivamente.

Morte

            No dia 29 de novembro de 1935, foi internado no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, com diagnóstico de "cólica hepática" causada por cálculo biliar associado a cirrose hepática, diagnóstico que é hoje ligado ao excesso de álcool.
            Alguns estudos diziam que Pessoa não demonstrava alguns dos sintomas mais típicos de cirrose hepática, tendo mais provavelmente sido vítima de uma pancreatite aguda. 
Morreu no dia 30 de Novembro, pelas 20h, com 47 anos de idade. No dia anterior, tinha escrito a sua última frase, em inglês: “I know not what tomorrow will bring” ("Não sei o que o amanhã trará").

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