Fernando Pessoa: a vastíssima incógnita expressada em heterônimos.
Sabe-se que a obra de Fernando Pessoa é célebre e vasta, reconhecida internacionalmente e cuja reputação permanece impecável, mesmo oito décadas após a morte do escritor, em 1935. Apesar de circunspecto e de compleição econômica, Pessoa possuía uma personalidade forte, abundante, como se não coubesse em si mesmo, necessitando de outras formas para se expressar. Pode-se notar esses traços enigmáticos no fragmento abaixo:
¨Não sei quantas almas tenho.Cada momento mudei.Continuamente me estranho.Nunca me vi nem acabei.De tanto ser, só tenho alma.Quem tem alma não tem calma.Quem vê é só o que vê,Quem sente não é quem é (...)”.Fragmento do poema “Não sei quantas almas tenho”, Fernando Pessoa.
No trecho acima, nota-se um intenso ímpeto de mudança, de adaptação, de mutação. O eu lírico não tem certeza quanto à quantidade de almas, personalidades ou partes substanciais de si mesmo. Porém, está certo de que existe algo pululante dentro dele, o qual não se pode negar.
Desta falta de exatidão sobre a existência do seu (s) eu (s) é que surgiram os famigerados heterônimos. Estes são autores fictícios com traços notáveis de personalidade, únicos e diferentes de seu criador (ortônimo). Ainda que fossem fictícias, tais personalidades se manifestavam nos textos de forma crível, real, com características ímpares. Portanto, um heterônimo é justamente o oposto de um pseudônimo, que consiste em assinar com um nome falso, mas mantendo as mesmas técnicas estilísticas do autor em questão.
Desde sua infância, Fernando Pessoa já era um criador excepcional de heterônimos. De imaginação estrambólica, o pequeno depositava toda sua convicção em figuras irreais e de nomes esdrúxulos (Chevalier de Pas, capitão Thibeaut, Alexander Search, etc.), que serviam como forma de expressão ou interação.
Os heterônimos mais conhecidos são:
Alberto Caeiro- O mestre de todos os outros heterônimos. É o poeta dos versos livres e linguagem simples. Acredita na fluidez da natureza e sua constante transformação. Valoriza mais as sensações (principalmente o olhar) do que o pensamento e a filosofia. Para ele, é necessário viver e sentir as coisas sem pensar.
Álvaro de Campos - É uma figura moderna, emocional, lúcida, defensor dos avanços industriais. Campos era um sujeito de natureza melancólica, prostrada, sentindo-se rejeitado por um mundo incompreensivo e sem preocupação com a estética do belo.
Ricardo Reis - Comedido, pacífico, cheio de preciosismos de linguagem, mas firme em sua convicção de gozar a vida. Apesar de seu quase hedonismo, Reis era dotado de uma personalidade fria, racional, que não enxergava o infinito nas coisas do mundo.
Há também um quarto heterônimo, chamado Bernardo Soares. Todavia, ao contrário das outras versões contrastantes de si mesmo, Bernardo Soares partilhava de mais semelhanças com o próprio Fernando Pessoa, só que sem a mesma capacidade de raciocínio e afetividade.
A título de
curiosidade, o escritor brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho publicou, em
2011, uma biografia sobre Fernando Pessoa que revela um número abissal de
heterônimos: 127. Até 1990, eram conhecidos apenas 72, tendo os 55 restantes
sido acrescentados pelo biógrafo.
Emblemático e
complexo, Fernando Pessoa continua sendo uma persona autêntica, transgressora e
inesquecível. Em suma, foi um sujeito não só maior que si mesmo, porém, maior
que a própria vida.
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